domingo, 15 de março de 2026

Canto da Dor Pisciana

Canto da Dor Pisciana
Hector Othon

Ó coração de água,
por que te deram margens tão frágeis
para conter oceanos?

O pisciano caminha pela Terra
com os pés na areia dos mundos invisíveis.
Escuta o choro antes que ele seja lágrima,
sente a ferida antes que ela seja golpe.

E por isso sofre.

Porque demais.
Sente demais.
Perdoa demais.

Entre homens de pedra
e vozes de ferro,
o pisciano oferece concha,
e recebe martelo.

Abre o peito como quem abre um templo,
mas muitos entram de botas pesadas,
sem perceber que pisam
sobre um altar vivo de sensibilidade.

Não sabem.
Não percebem.
Não sentem.

Pisoteiam flores pensando ser chão.

E o pisciano, silencioso,
recolhe os fragmentos do próprio coração
como quem recolhe estrelas caídas no mar.

uma condenação na sua alma:

sentir o que os outros ainda não aprenderam a sentir.

Ser espelho de dores
que o mundo ainda não reconhece.

Mas também um dom secreto.

Porque o mesmo coração que sangra
é o que escuta a música do universo.

Quando a dor se torna insuportável,
pisciano não grita, não chora —
canta. dança.

Canta para as águas.
Canta para os céus.
Canta para que o sofrimento
se transforme em onda,
e a onda volte ao mar.

E assim a alma se alivia.

Então canta, pisciano,
mesmo quando ninguém entende tua maré.

Canta para o invisível,
canta para as estrelas,
canta para as águas que te deram forma.

Canta pisciano
que assim os males espantas. 🌊✨

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